Vladímir Ilich Uliánov LENINE
Que fazer?
Problemas candentes do nosso
movimento
III
POLÍTICA TRADE-UNIONISTA E POLÍTICA SOCIAL-DEMOCRATA
b) De como Martínov aprofundou Plekhánov
«Quantos Lomonóssov social-democratas surgírom nos últimos tempos no nosso país!», observou, certo dia, um camarada, referindo-se à espantosa inclinaçom pola qual muita gente, propensa ao «economismo», quer chegar infalivelmente, através da «sua própria inteligência», às grandes verdades (tal como, por exemplo, a de que a luita económica leva os operários a pensar na sua falta de direitos), desconhecendo, com um soberano desprezo, próprio dos génios autodidactas, tudo o que já foi produzido polo desenvolvimento anterior do pensamento revolucionário e do movimento revolucionário. Lomonóssov-Martínov é, precisamente, um génio desta índole. Lede o seu artigo Questons Imediatas e veredes como se aproxima pola «sua própria inteligência» de cousas que, já há muito, tinham sido expostas por Axelrod (acerca do qual, bem entendido, o nosso Lomónossov guarda um silêncio absoluto); como começa, por exemplo, a compreender que nom podemos ignorar o espírito de oposiçom destas ou daquelas camadas da burguesia (R. D. N.° 9, pp. 61, 62 e 71; comparade com a Resposta da Redacçom da R. Dielo a Axelrod, pp. 22, 23 e 24), etc. Mas, oh!, só «se aproxima» e só «começa», nada mais, porque, apesar de tudo, a tal ponto nom compreendeu ainda as ideias de Axelrod que fala de «luita económica contra os patrons e o governo». Ao longo de três anos (1898-1901), a Rab. Dielo vinha fazendo esforços para compreender Axelrod e com tudo nom o compreendeu! Talvez isto aconteça também porque à social-democracia, «à semelhança da humanidade», se colocam sempre unicamente tarefas realizáveis?
Mas os Lomonóssov caracterizam-se nom só por ignorarem muitas cousas (isto seria apenas um meio mal!), mas ainda por nom se darem conta da sua ignoráncia. Isto é já umha verdadeira desgraça, e esta desgraça leva-os, sem mais, a empreender a tarefa de «aprofundar» Plekhánov.
«Depois de Plekhánov ter escrito o opúsculo citado (Sobre as Tarefas dos Socialistas na luita contra fame na Rússia), muita água correu sob as pontes –di Lomónossov-Martínov–. Os social-democratas que durante dez anos dirigírom a luita económica da classe operária ... Nom tivérom ainda tempo de apresentar umha ampla fundamentaçom teórica da táctica do partido. Actualmente esta questom está amadurecida e, se quigéssemos apresentar umha fundamentaçom teórica deste tipo, veríamo-nos sem dúvida obrigados a aprofundar consideravelmente os princípios tácticos que, em seu tempo, fôrom desenvolvidos por Plekhánov ... Veríamo-nos agora obrigados a definir a distinçom entre a propaganda e a agitaçom de maneira diferente da que foi feita por Plekhánov» (Martínov acaba de citar as palavras de Plekhánov: «O propagandista inculca muitas ideias a umha só pessoa ou a um pequeno número de pessoas, enquanto o agitador inculca umha só ideia ou um pequeno número de ideias, mas, em contrapartida, inculca-as a toda umha massa de pessoas»). «Por propaganda entenderíamos a explicaçom revolucionária de todo o regime actual, ou das suas manifestaçoms parciais, quer isso se faga de umha forma acessível somente a algumhas pessoas ou às grandes massas. Por agitaçom, no sentido estrito do termo (sic!) entenderíamos o apelo dirigido às massas para certas acçons concretas, a promoçom da intervençom revolucionária directa do proletariado na vida social.»
Felicitamos a social-democracia russa –e internacional– por esta nova terminologia martinoviana, mais rigorosa e mais profunda. Até agora, pensávamos (com Plekhánov e com todos os chefes do movimento operário internacional) que um propagandista, se tratar por exemplo da questom do desemprego, deve explicar a natureza capitalista das crises, assinalar a causa da inevitabilidade das mesmas na sociedade actual, indicar a necessidade de transformar a sociedade capitalista em socialista, etc. Numha palavra, deve dar «muitas ideias», tantas que todas essas ideias, no seu conjunto, só poderám ser assimiladas no momento por poucas (relativamente) pessoas. Polo contrário, ao tratar do mesmo problema, o agitador tomará um exemplo, o mais flagrante e mais conhecido do seu auditório –por exemplo, o caso de umha família de desempregados morta de inaniçom, a miséria crescente, etc.–, e aproveitando este facto conhecido por todos fará todos os esforços para inculcar nas «massas» umha só ideia: a ideia do absurdo da contradiçom entre o aumento da riqueza e o aumento da miséria; procurará despertar nas massas o descontentamento, a indignaçom contra esta flagrante injustiça, deixando ao propagandista o cuidado de dar umha explicaçom completa desta contradiçom. É por isso que o propagandista actua principalmente por meio da palavra impressa, enquanto o agitador actua de viva voz. Ao propagandista exigem-se qualidades diferentes das do agitador. Diremos que Kautsky e Lafargue, por exemplo, som propagandistas, enquanto Bebel e Guesde som agitadores. Estabelecer um terceiro terreno ou umha terceira funçom da actividade prática, incluindo nesta funçom o «apelo dirigido às massas para certas acçons concretas» é o maior dos disparates, porque o «apelo», como acto isolado, ou é um complemento natural e inevitável do tratado teórico, da brochura de propaganda e do discurso de agitaçom, ou constitui simplesmente umha funçom nitidamente executiva. Com efeito, tomemos, por exemplo, a luita actual dos social-democratas alemáns contra os direitos alfandegários sobre os cereais. Os teóricos escrevem estudos de investigaçom sobre a política aduaneira em que «apelam», digamos assim, para a luita pola conclusom de tratados comerciais e pola liberdade de comércio; o propagandista fai o mesmo nas revistas e o agitador nos seus discursos públicos. A «acçom concreta» das massas consiste, neste caso, na assinatura de umha petiçom dirigida ao Reichstag exigindo que nom sejam aumentados os direitos alfandegários sobre os cereais. O apelo para esta acçom parte indirectamente dos teóricos, dos propagandistas e dos agitadores, e directamente dos operários que percorrem as fábricas e as casas particulares com as listas de adesom à petiçom. Segundo a «terminologia de Martínov», resultaria que Kautsky e Bebel som ambos propagandistas, e os portadores das listas de adesom som agitadores. Nom é assim?
O exemplo dos alemáns fijo-me recordar a palavra alemá Verballhornung, literalmente «ballhornizaçom». Johann Ballhorn era um editor de Leipzig do século XVI; editou um abecedário onde, como era usual, estava desenhado um galo, mas em lugar do galo vulgar com esporons representou um sem esporons e com dous ovos ao lado. Na capa do abecedário dizia: «Ediçom corrigida de Johann Ballhorn». Desde entom os alemáns chamam Verballhornung a umha «correcçom» que de facto piora o corrigido. A história de Ballhorn vem-me involuntariamente ao espírito quando vejo como os Martínov «aprofundam» Plekhánov...
Para que terá «inventado» o nosso Lomonóssov esta confusom? Para demonstrar que o Iskra, «da mesma maneira que Plekhánov há já uns quinze anos, apenas considera um aspecto da questom» (39). «Segundo o Iskra, polo menos por agora, as tarefas de propaganda relegam para segundo plano as de agitaçom» (52). Se traduzirmos esta última frase da linguagem de Martínov para linguagem humana corrente (porque a humanidade nom tivo ainda tempo de adoptar esta terminologia que acaba de ser descoberta), obteremos o seguinte: segundo o Iskra, as tarefas de propaganda e de agitaçom política relegam para segundo plano a tarefa de «apresentar ao governo reivindicaçons concretas de medidas legislativas e administrativas» que «prometem certos resultados tangíveis» (por outras palavras, reivindicaçons de reformas sociais, se nos é permitido, ainda umha vez mais, empregar a velha terminologia da velha humanidade, que nom chegou ainda ao nível de Martínov). Que o leitor compare com esta tese a seguinte tirada:
«O que nos espanta nestes programas» (os programas dos social-democratas revolucionários), «é que eles coloquem sempre em primeiro plano as vantagens da actividade dos operários no Parlamento (inexistente no nosso país) e passem completamente por alto (em conseqüência do seu niilismo revolucionário) a importáncia da participaçom dos operários nas assembleias legislativas dos industriais, existentes no nosso país, para a discussom de assuntos fabris ... ou a importáncia da participaçom dos operários ainda que simplesmente na administraçom municipal urbana...»
O autor desta tirada exprime de um modo mais directo, claro e franco a ideia a que Lomónossov-Martínov chegou pola sua própria inteligência. Este autor é R. M., no Suplemento Separado do Rab. Misl (p. 15).
c) As denúncias políticas e a «educaçom da actividade revolucionária»
Ao lançar contra o Iskra a sua «teoria» da «elevaçom da actividade da massa operária», Martínov revelou, na realidade, a sua tendência para rebaixar esta actividade, umha vez que declarou que o meio preferível, de particular importáncia, «mais amplamente aplicável» para a despertar, e o campo desta actividade era a própria luita económica, diante da qual rastejárom também todos os «economistas». Este erro é característico precisamente porque nom e só próprio de Martínov, longe disso. Na realidade, só se pode «elevar a actividade da massa operária» desde que nom nos circunscrevamos à «agitaçom política no terreno económico». E umha das condiçons essenciais para essa extensom indispensável da agitaçom política é organizar denúncias políticas que abarquem todos os terrenos. A consciência política e a actividade revolucionária das massas nom podem ser educadas senom com base nestas denúncias. Por isso, a actividade deste género constitui umha das mais importantes funçons de toda a social-democracia internacional, porque mesmo a liberdade política nom elimina de modo algum essas denúncias; unicamente desloca um pouco a esfera para que som dirigidas. Por exemplo, o partido alemám reforça as suas posiçons e alarga a sua influência graças precisamente à persistente energia das suas campanhas de denúncias políticas. A consciência da classe operária nom pode ser umha verdadeira consciência política se os operários nom estám habituados a reagir contra todos os abusos de arbitrariedade e opressom, de violências e abusos de toda a espécie, quaisquer que sejam as classes afectadas; e a reagir, além disso, do ponto de vista social-democrata e nom de qualquer outro. A consciência das massas operárias nom pode ser umha verdadeira consciência de classe se os operários nom aprenderem, com base em factos e acontecimentos políticos concretos e, além disso, necessariamente de actualidade, a observar cada umha das outras classes sociais em todas as manifestaçons da sua vida intelectual, moral e política; se nom aprenderem a aplicar na prática a análise materialista e a apreciaçom materialista de todos os aspectos da actividade e da vida de todas as classes, camadas e grupos da populaçom. Quem dirigir a atençom, o espírito de observaçom e a consciência da classe operária exclusivamente, ou mesmo apenas principalmente, para si própria, nom é um social-democrata, porque o conhecimento de si própria por parte da classe operaria está inseparavelmente ligado a umha clara compreensom nom só dos conceitos teóricos... ou melhor: nom tanto dos conceitos teóricos, como das ideias elaboradas com base na experiência da vida política sobre as relaçons entre todas as classes da sociedade actual. É por esta razom que a defesa polos nossos «economistas» da luita económica como o meio mais amplamente aplicável para integrar as massas no movimento político é, polo seu significado prático, tam profundamente nociva e tam profundamente reaccionária. Para se tornar um social-democrata o operário deve ter umha ideia clara da natureza económica e da fisononomia política e social do latifundiário e do padre, do dignitário e do camponês, do estudante e do vagabundo, conhecer os seus pontos fortes e os seus pontos fracos, saber orientar-se nas frases mais correntes e sofismas de toda a espécie com que cada classe e cada camada encobre os seus apetites egoístas e as suas verdadeiras «entranhas», saber distinguir que interesses reflectem estas ou aquelas instituiçons e leis e como os reflectem. E nom é nos livros que se pode obter esta «ideia clara»: só a podem dar quadros vivos, denúncias em cima dos acontecimentos, de tudo o que sucede num dado momento à nossa volta, do que todos e cada um falam ou, polo menos, murmuram, à sua maneira, do que se manifesta em determinados acontecimentos, números, sentenças judiciais, etc., etc., etc. Estas denúncias políticas que abarcam todos os aspectos da vida som umha condiçom indispensável e fundamental para educar a actividade revolucionária das massas.
Porque é que o operário russo manifesta ainda pouca actividade revolucionária perante a violência brutal com que a polícia trata o povo, perante a perseguiçom das seitas, perante os castigos corporais impostos aos camponeses, os abusos da censura, os maus tratos de que som objecto os soldados, a perseguiçom das iniciativas culturais mais inofensivas, etc.? Será porque a «luita económica» nom o «leva» a isso, porque isso lhe «promete» poucos «resultados tangíveis», lhe oferece poucos resultados «positivos»? Nom, semelhante juízo, repetimo-lo, nom é senom umha tentativa para lançar as culpas sobre os outros, para lançar o seu próprio filistinismo (ou seja, o bernsteinianismo) sobre a massa operária. Devemos atribuir a culpa a nós próprios, ao nosso atraso em relaçom com o movimento das massas, a nom termos sabido ainda organizar denúncias suficientemente amplas, convincentes e rápidas contra todas estas infámias. E se o figermos (e devemos e podemos fazê-lo), o operário mais atrasado compreenderá ou sentirá que o estudante e o membro de umha seita, o mujique e o escritor som vítimas dos abusos e do arbítrio dessa mesma força tenebrosa que tanto o oprime e subjuga a ele em cada passo da sua vida, e, ao senti-lo, ele próprio quererá reagir, quererá-o irresistivelmente, e saberá hoje apupar os censores, manifestar-se amanhá em frente da casa do governador que sufocou um levantamento de camponeses, dar depois de amanhá umha liçom aos gendarmes com sotaina que desempenham a funçom da santa inquisiçom, etc. Até agora figemos muito pouco, quase nada, para lançar entre as massas operárias denúncias sobre todos os assuntos e de actualidade. Muitos de nós nem sequer tenhem ainda consciência desta sua obrigaçom e arrastam-se espontaneamente atrás da «cinzenta luita quotidiana» nos limites estreitos da vida fabril. Nestas condiçons, dizer: «O Iskra tem tendência para subestimar a importáncia da marcha ascendente da cinzenta luita quotidiana, em comparaçom com a propaganda de ideias brilhantes e acabadas». (Martínov, p. 61) –significa arrastar o partido para trás, significa defender e glorificar a nossa impreparaçom, o nosso atraso.
Quanto ao apelo dirigido às massas para a acçom, surgirá por si mesmo desde que haja umha enérgica agitaçom política e denúncias vivas e incisivas. Apanhar alguém em flagrante delito e estigmatizá-lo imediatamente perante todos e em toda a parte tem mais efeito do que qualquer «apelo» e exerce muitas vezes umha influência tam grande que mais tarde nem sequer é possível determinar quem foi, precisamente, que «apelou» para a multidom e quem foi, precisamente, que lançou este ou aquele plano de manifestaçom, etc. Nom se pode apelar para umha acçom –no sentido concreto da palavra e nom no sentido geral– senom no próprio lugar da acçom; só pode exortar os outros à acçom aquele que se lança na acçom. A nós, publicistas social-democratas, compete-nos aprofundar, alargar e intensificar as denúncias políticas e a agitaçom política.
A propósito dos «apelos». O único órgao que antes dos acontecimentos da Primavera 78 apelou para a intervençom activa dos operários numha questom que nom prometia absolutamente nengum resultado tangível aos operários, como era a do recrutamento militar dos estudantes, foi o «Iskra». Imediatamente depois da publicaçom da ordem de 11 de Janeiro sobre «a incorporaçom de 183 estudantes nas fileiras do exército», o Iskra publicou um artigo sobre este facto (n.° 2, Fevereiro), e antes de começar qualquer manifestaçom apelou abertamente «para o operário vir em ajuda do estudante», apelou para que o «povo» respondesse ao insolente desafio do governo. Perguntamos a todos e a cada um: como explicar o facto notável de Martínov, que tanto fala de «apelos», que até destaca os «apelos» como umha forma particular de actividade, nom tenha mencionado este apelo? Depois disso, nom será filistinismo da parte de Martínov declarar que o «Iskra» é unilateral por nom «apelar» suficientemente para a luita por reivindicaçons «que prometam resultados tangíveis»?
Os nossos «economistas», entre eles a Rabótcheie Dielo, tivérom êxito porque macaqueárom a mentalidade dos operários atrasados. Mas o operário social-democrata, o operário revolucionário (e o número destes operários aumenta dia a dia) repudiará com indignaçom todos estes arrazoados sobre a luita por reivindicaçons «que prometam resultados tangíveis», etc., porque ele compreenderá que nom som mais do que variaçons da velha cantiga do aumento de um copeque por rublo. Este operário dirá aos seus conselheiros do R. Misl e da Rab. Dielo: Atarefam-se em vao, senhores, intervindo com demasiado zelo nos assuntos que nós próprios resolvemos e esquivando-se ao cumprimento das suas verdadeiras obrigaçons. Porque nom é muito inteligente dizer, como vocês o fam, que a tarefa dos social-democratas e imprimir à própria luita económica um carácter político; isso nom é mais do que o começo, nom é a tarefa principal dos social-democratas, porque no mundo inteiro, incluindo a Rússia, é a própria polícia quem, muitas vezes, começa a imprimir à luita económica um carácter político, e os próprios operários aprendem a compreender ao lado de quem está o governo 79. Com efeito, essa «luita económica dos operários contra os patrons e o governo», que vocês ostentam como umha nova América que tivessem descoberto, fam-na, em muitos lugares perdidos da Rússia, os próprios operários, que ouvírom falar de greves, mas ignoram provavelmente tudo sobre o socialismo. Essa nossa «actividade», dos operários, actividade que todos vocês querem apoiar apresentando reivindicaçons concretas que prometem resultados tangíveis, existe já entre nós e, no nosso trabalho quotidiano, profissional, limitado, nós próprios apresentamos estas reivindicaçons concretas, a maior parte das vezes sem qualquer ajuda dos intelectuais. Mas tal actividade nom nos basta; nom somos crianças que podam ser alimentadas apenas com a papinha da política «económica»; queremos saber tudo o que os outros sabem, queremos conhecer pormenorizadamente todos os aspectos da vida política e participar activamente em todos e cada um dos acontecimentos políticos. Para isso, é necessário que os intelectuais nos repitam menos o que nós próprios sabemos 80, e que nos dem mais daquilo que ainda ignoramos, daquilo que a nossa experiência «económica» e fabril nunca nos ensinará: os conhecimentos políticos. Estes conhecimentos só vocês, os intelectuais, podem adquiri-los, e é dever seu fornecer-no-los cem e mil vezes mais do que até aqui o tenhem feito; além disso, nom os devem fornecer apenas sob a forma de raciocínios, brochuras e artigos (que freqüentemente —desculpem a nossa franqueza!— som um pouco maçudos), mas indispensavelmente sob a forma de denúncias vivas de tudo aquilo que o nosso governo e as nossas classes dominantes fam actualmente em todos os aspectos da vida. Cumpram com o maior zelo esta sua obrigaçom e falem menos «da elevaçom da actividade da massa operária». Temos muito maior actividade do que pensam, e sabemos apoiar através de umha luita aberta nas ruas mesmo as reivindicaçons que nom prometem qualquer «resultado tangível»! E nom som vocês que «elavarám» a nossa actividade, porque essa actividade é precisamente o que lhes falta. Nom se prosternem tanto perante a espontaneidade e pensem mais em elevar a sua própria actividade, senhores!
d) Que há de comum entre o economismo e o terrorismo?
Mais atrás, numha nota, pugemos em confronto um «economista» e um terrorista nom social-democrata que, por acaso, se revelárom solidários. Mas, de umha maneira geral, existe entre eles umha ligaçom nom casual, mas intrínseca e necessária, sobre a qual voltaremos ainda a falar, e a que temos de nos referir precisamente ao tratar da educaçom da actividade revolucionária. Os «economistas» e os terroristas contemporáneos tenhem umha raiz comum, a saber: o culto da espontaneidade, do qual falamos no capítulo precedente como de um fenómeno geral e cuja influência no terreno da actividade política e da luita política examinaremos agora. À primeira vista, a nossa afirmaçom pode parecer paradoxal: tam grande parece ser a diferença entre os que sublinham a «cinzenta luita quotidiana» e aqueles que apelam à luita mais abnegada o indivíduo isolado. Mas isto nom é de maneira algumha um paradoxo. Os «economistas» e os terroristas prestam culto a dous pólos opostos da corrente espontánea: os «economistas» à espontaneidade do «movimento nitidamente operário» e os terroristas à espontaneidade da mais ardente indignaçom dos intelectuais, que nom sabem ou nom tenhem a possibilidade de ligar num todo o trabalho revolucionário e o movimento operário. É de facto difícil a aqueles que perdêrom a fé nesta possibilidade, ou que nela nunca acreditárom, encontrar outra saída para a sua indignaçom e energia revolucionária que nom seja o terror. Por isso, o culto da espontaneidade, nas duas direcçons indicadas, nom é mais do que o começo da realizaçom do famoso programa do Credo: os operários conduzem a sua «luita económica contra os patrons e o governo» (que o autor do Credo nos perdoe por exprimirmos o seu pensamento na linguagem de Martínov!. Julgamo-nos no direito de o fazer, umha vez que no Credo também se fala de como os operários, na luita económica, «entram em choque com o regime político») e os intelectuais conduzem a luita política com as suas próprias forças, e naturalmente por meio do terror! É umha conclusom absolutamente lógica e inevitável sobre a qual nom será de mais insistir, mesmo quando aqueles que começam a realizar este programa se nom dérom conta eles próprios do carácter inevitável desta conclusom. A actividade política tem a sua lógica, que nom depende da consciência dos que, com as melhores intençons do mundo, exortam, ou ao terror, ou a que se imprima à própria luita económica um carácter político. De boas intençons está o inferno cheio e, no caso presente, as boas intençons nom som suficientes para salvar as pessoas de serem espontaneamente arrastadas pola «linha do menor esforço», pola linha do programa nitidamente burguês do Credo. Com efeito, nom é por acaso que muitos liberais russos –tanto os liberais declarados como os que se cobrem com umha máscara marxista –simpatizam de todo o coraçom com o terror e procuram, actualmente, apoiar o crescimento do espírito terrorista.
Pois bem, o aparecimento do «grupo revolucionário-socialista Svoboda», que se colocou a tarefa de cooperar por todos os meios com o movimento operário, mas incluindo no seu programa o terror e emancipando-se, por assim dizer, da social-democracia, confirmou umha vez mais a notável perspicácia de P. B. Axelrod, que, já no final de 1897, previu com toda a exactidom este resultado das vacilaçons social-democratas (A Propósito das Tarefas e da Táctica Actuais) e esboçou as suas célebres «duas perspectivas». Todas as discussons e divergências posteriores entre os social-democratas russos estám contidas, como a planta na semente, nestas duas perspectivas 81.
Deste ponto de vista, também se compreende que a Rab. Dielo, que nom pudo resistir à espontaneidade do «economismo», também nom tenha podido resistir à espontaneidade do terrorismo. É do maior interesse assinalar a argumentaçom original com que o «Svoboda» esgrimiu em defesa do terror. «Nega completamente» o papel de intimidaçom do terror (Renascimento do Revolucionarismo, p. 64), mas, por outro lado, sublinha o seu «significado como excitante». Isto é característico, em primeiro lugar, como umha das fases da decomposiçom e da decadência deste círculo tradicional (pré-social-democrata) de ideias que tinha obrigado a que se continuasse preso ao terror. Reconhecer que actualmente é impossível «intimidar» o governo –e, por conseguinte, desorganizá-lo– por meio do terror equivale, no fundo, a umha redonda condenaçom do terror como sistema de luita, como campo de actividade consagrado por um programa. Em segundo lugar, isto é ainda mais característico como exemplo da incomprensom das nossas tarefas imediatas no que se refere à «educaçom da actividade revolucionária das massas». O «Svoboda» fai propaganda do terror como meio para «excitar» o movimento operário e imprimir-lhe «um forte impulso». É difícil imaginar umha argumentaçom que a si própria se refute com mais evidência! Cabe perguntar se nom existem na vida russa tam poucos abusos que ainda se torne necessário inventar meios «excitantes» especiais. E, por outro lado, se há quem nom se excita e nom é excitável nem sequer pola arbitrariedade russa, nom será por acaso evidente que continuará a contemplar, coçando a orelha, o duelo entre o governo e um punhado de terroristas? Ora, precisamente, as massas operárias excitam-se muito com as infámias da vida russa, destila em quantidade incomensuravelmente maior do que aquilo que nós pensamos, mas que há que reunir numha única torrente gigantesca. Que isto é realizável, prova-o irrefutavelmente o formidável ascenso do movimento operário, bem como a ánsia dos operários, já assinalada mais atrás, pola literatura política. E os apelos ao terror, bem como os apelos a que se imprima à própria luita económica um carácter político, nom som mais do que formas diferentes de fugir ao dever mais imperioso dos revolucionários russos: organizar a agitaçom política em todas as suas formas. O «Svoboda» quer substituir a agitaçom polo terror, confessando abertamente que, «desde que comece a agitaçom intensa e enérgica entre as massas, o papel excitante deste desaparecerá» (Renascimento do Revolucionarismo, p. 68). Isto mostra precisamente que tanto os terroristas como os «economistas» subestimam a actividade revolucionária das massas, apesar da prova evidente que representam os acontecimentos da Primavera 82, e uns lançam-se à procura de «excitantes» artificiais, outros falam de «reivindicaçons concretas». Nem uns nem outros prestam suficiente atençom ao desenvolvimento da sua própria actividade em matéria de agitaçom política e de organizaçom de denúncias políticas. E nem agora, nem em qualquer outro momento, existe algo que poda substituir esta actividade.
e) A classe operária como combatente de vanguarda pola democracia
[78] Trata-se das acçons revolucionárias de massas dos estudantes e operários —manifestaçons políticas, comícios e greves— que tivérom lugar em Fevereiro e Março de 1901 em Petersburgo, Moscovo, Kíev, Khárkov, Kazám, Tomsk e outras cidades da Rússia. (N. Ed.)
[79] A exigência de «imprimir à própria luita económica um carácter político» exprime com o maior relevo o culto da espontaneidade no domínio da actividade política. Muito freqüentemente a luita económica adquire de maneira espontánea um carácter político, isto é, sem intervençom desse «bacilo revolucionário que som os intelectuais», sem a intervençom dos social-democratas conscientes. Assim, a luita económica dos operários em Inglaterra adquiriu também um carácter político sem a menor participaçom dos socialistas. Mas a tarefa dos social-democratas nom se limita à agitaçom política no domínio económico; a sua tarefa é transformar esta política trade-unionista numha luita política social-democrata, aproveitar os vislumbres de consciência política que a luita económica fijo penetrar no espírito dos operários para elevar estes à consciência política social-democrata. Pois bem, os Martínov, em vez de elevar e fazer progredir a consciência política que desperta espontaneamente, prosternam-se diante da espontaneidade e repetem, repetem até a náusea, que a luita económica «leva» os operários a pensar na sua falta de direitos políticos. É lamentável, senhores, que este despertar espontáneo da consciência política trade-unionista nom os «leve» a vocês próprios a pensar nas suas tarefas social-democratas!
[80] Para confirmar que todo este discurso dos operários aos «economistas» nom é fruto da nossa imaginaçom, referimo-nos a duas testemunhas que conhecem sem dúvida directamente o movimento operário e que de modo algum som propensos a mostrar parcialidade por nós, «dogmáticos», pois um deles é um «economista» (que considera até a Rabótcheie Dielo como um órgao político!) e o outro um terrorista. O primeiro é o autor de um notável artigo cheio de vida e verdade: O Movimento Operário em Petersburgo e as Tarefas Políticas da Social-Democracia (Rab. D., n.° 6). O autor divide os operários em: 1) revolucionários conscientes; 2) camada intermédia; 3) o resto da massa. Ora acontece que a camada intermédia «interessa-se freqüentemente mais polos problemas da vida política do que polos seus interesses imediatos, cuja relaçom com as condiçons sociais gerais já foi, desde há muito, compreendida»... O Rab. Misl é «duramente criticado»: «sempre o mesmo, há muito que o sabemos, há muito que o lemos», «na crónica política outra vez nada trai de novo» (pp. 30-31). Mas mesmo a terceira camada: «a massa operária mais sensível, mais jovem, menos corrompida pola taberna e pola igreja, que quase nunca tem possibilidade de arranjar um livro de conteúdo político, fala de qualquer maneira dos acontecimentos da vida política, medita sobre as notícias fragmentárias de um motim de estudantes», etc. Quanto ao terrorista, escreve: «... Lem umha ou duas vezes as linhas que relatam pormenores da vida das fábricas em cidades distintas da sua e depois deixam de ler... Aborrece-os... nom falar sobre o Estado num jornal operário... é tratar o operário como umha criança... O operário nom é umha criança.» (Svoboda [Liberdade: revista editada na Suíça polo grupo «revolucionário-socialista» Svoboda. Publicárom-se o n.º 1 em 1901 e o n.º 2 em 1902. O grupo Svoboda pregava as ideias do «economismo» e do terrorismo e apoiava as organizaçons anti-iskristas da Rússia. O grupo deixou de existir em 1903 (N. Ed.)] 160, ed. do grupo revolucionário-socialista, pp. 69-70.)
[81] Martínov «imagina um outro dilema, mais real (?)» (A Social-Democracia e a Classe Operária, p. 19): «Ou a social-democracia assume a direcçom imediata da luita económica do proletariado e, por isso mesmo (!), a transforma em luita revolucionária de classe...» «Por isso mesmo», quer dizer, evidentemente, pola direcçom imediata da luita económica. Que Martínov nos mostre onde já se viu que, polo único e simples facto de dirigir a luita sindical, se tenha conseguido transformar o movimento trade-unionista em movimento revolucionário de classe. nom se aperceberá que para realizar esta «transformaçom» nos devemos encarregar activamente da «direcçom imediata» da agitaçom política em todos os seus aspectos?... «Ou entom esta outra perspectiva: a social-democracia abandona a direcçom da luita económica dos operários e, isso... fica com as asas cortadas»... Segundo a opiniom da Rab. Dielo, já citada, é o Iskra que «abandona esta direcçom». Mas, como já vimos, o Iskra fai muito mais do que a «Rab. Dielo» para dirigir a luita económica e, além disso nom se limita a ela, nem restringe, em nome dela, as suas tarefas políticas.
[82] Trata-se da Primavera de 1901, quando começárom grandes manifestaçons nas ruas. (Nota de Lenine à ediçom de 1907 –N. Ed.)